No decorrer dos milênios, diferentes povos ao redor do mundo desenvolveram a cultura da deformação artificial dos crânios. Seja para manter a posição de privilégio da família ou por devoção religiosa, os adultos desses grupos modificavam a cabeça de seus filhos em diferentes formatos.
Arqueólogos identificaram essa prática em povos ancestrais em todos os continentes habitados por humanos. De sítios na Itália à China, escavações revelaram restos mortais com crânios moldados, alguns datados de mais de 12 mil anos.
Na América, civilizações ancestrais acreditavam que moldar a cabeça de suas crianças traria vantagens. Em seu novo livro, “The Mountain Embodied”, o antropólogo Matthew Velasco, professor na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, detalha as tradições de dois desses povos: os Collaguas e os Cavanas, vizinhos que habitavam o Vale do Colca, no Peru.
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Crânios modificados eram símbolo de devoção nos Andes
Segundo a obra, entre 1100 e 1450 anos atrás, os Collaguas empregavam técnicas para moldar suas cabeças em um formato longo e estreito, enquanto os Cavanas preferiam crânios largos e achatados. Com o passar do tempo, o estilo alongado acabou predominando em todo o vale.
Essas modificações imitavam o desenho das montanhas andinas, sagradas para as duas culturas. Baseado nos registro de um escriba espanhol do século XVI, Velasco apresenta evidências da devoção de cada um dos povos.

(Imagem: Eugeniusz Grzywocz / Wikimedia Commons)
Os Collaguas usavam chapéus alto, chamados chucos, e moldavam seus crânios em reverência a Collaguata, o vulcão que consideravam seu lar ancestral. Já os Cavanas esculpiam a forma da cabeça em homenagem a Gualcagualca, o pico nevado que se erguia acima de sua cidade.
“Montanhas e objetos sagrados podiam ser plenamente tratados como pessoas. As montanhas, em particular, eram consideradas participantes vitais da sociedade e, como antropólogos, levamos essa ideia a sério, mesmo que pareça estranha”, explicou o pesquisador em uma entrevista ao New York Times.
Formato da cabeça seria símbolo de privilégios para povos antigos
Em uma pesquisa anterior, publicada na revista científica Current Anthropology em 2018, Velasco examinou mais de 200 crânios em cemitérios Collagua para entender os efeitos dessas alterações.
Baseado em análises esqueléticas, o pesquisador concluiu que as mulheres desse povo com as modificações craniais poderiam ter privilégios, como melhor acesso a alimentos e menor contato com a violência.
No livro deste ano, o antropólogo reforça essa ideia e apresenta evidências de que a cultura de moldar a cabeça das crianças contribuiu para a desigualdade social nesses povos. Segundo o autor, indivíduos com crânios modificados assumiam papéis na agricultura e no pastoreio que mais tarde os davam acesso a terras e recursos.
O pesquisador notou uma ampla adoção dessa prática no século XIV, o que, de acordo com ele, pode ter servido para manter a riqueza dentro desses grupos já privilegiados.

Após esse crescimento, a cultura seguiu uma linha de decadência. No século XV, os incas anexaram o Vale do Colca ao seu império e, embora permitissem a prática entre os habitantes locais, não a assimilaram em sua cultura.
No final do século XVI, os espanhóis proibiram de forma definitiva essa tradição. A primeira medida veio em 1573, por ordem do vice-rei do Peru, Francisco Toledo. Dez anos depois, novamente pelo Terceiro Concílio de Lima, quando a Igreja Católica estabeleceu as diretrizes para a evangelização dos povos indígenas da região.
A obra de Velasco foi lançada em julho deste ano com o título completo “The Mountain Embodied: Head Shaping and Personhood in the Ancient Andes”. Ainda não há uma versão em português.
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